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Oportunidades Perdidas

Uma reflexão sobre discernimento, equilíbrio e o aproveitamento das oportunidades de progresso espiritual.

Publicado no Jornal Espírita n.º 465 — Março de 2025, página 6.

“A luz ainda está convosco por um pouco de tempo; andai

enquanto tendes luz, para que as trevas não vos apanhem; pois

quem anda nas trevas não sabe para onde vai.” – Jesus (Jo.,12:35)

Dizem os Benfeitores Espirituais que os Espíritos encarnados na Crosta Terrestre somos “experts” na arte de perder oportunidades de elevação… Esgotamos tempo precioso com quimeras, malversando ensejos que – mercê de muito esforço – a Espiritualidade Maior nos encaminha, vez que o mundo material anestesia nosso sentimento, obnubila nossa visão, entorpece nosso discernimento e acena-nos com sendas ilusórias nas quais nos perdemos e nos desorientamos.

A luz que o Consolador esparze, luarizando nosso entendimento, deslumbra-nos, mas, a exemplo da mariposa, voamos de encontro a ela e saímos entontecidos no torvelinho de nossos interesses subalternos e cogitações chãs.

É preciso ter “olhos de ver e ouvidos de ouvir”. Essas palavras do Mestre não são simples figura de linguagem e tampouco redundância ou pleonasmo… O facto é que teimamos em uma acomodação ancilosante e não lutamos com todas as nossas forças contra as imperfeições, deixando o campo livre e descuidado, onde deveríamos arrotear e cuidar – incessantemente – da boa sementeira.

Uma oportunidade perdida é património alienado por desídia.

Atentemos para a assertiva de Tiago [1]: “mas todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para irar”. Ora, não raras vezes perdemos por falar quando deveríamos calar; outras vezes por calar quando deveríamos falar; outras por fazer; outras por deixar de fazer… Sem dúvida que o equilíbrio é a plataforma ideal, isto é, nem excesso nem omissão. Nesse passo, lembra-nos La Bruyère: “(…) é um grande infortúnio não possuir inteligência para falar bem, nem discernimento suficiente para ficar calado”.

Discernir, portanto, é verbo para ser conjugado em todos os tempos e modos, desaguando em ações construtivas respaldadas no bom senso.

Conclui o grande e inolvidável Paulo de Tarso [2]: “tudo me é lícito fazer, porém, nem tudo me convém”.

O Espírita-Cristão é reconhecido pelos esforços que empreende no sentido de aperfeiçoar-se, ao mesmo tempo em que dá ferrenho combate às suas más inclinações [3].

Existem “espíritas” que alardeiam com ufania seus trinta, quarenta ou mais anos de Espiritismo, mas não mostram “bagagem doutrinária” correspondente a esses lustros de aprendizado… Existem também aquel`outros a quem pedimos licença a Kardec para chamá-los de “espíritas-torcedores”, assim chamados pela incrível facilidade com que “torcem” os ensinamentos do Mestre para atendimento de suas inclinações particulares, suas idiossincrasias menos felizes das quais são extremamente ciosos.

Segundo Raul Teixeira, querido médium fluminense, quando Jesus conclamava Seus discípulos a que “se amassem uns aos outros”, entenderam que o verbo era “amassar” e não amar, partindo, assim para a beligerância que hoje flagramos no seio da comunidade espírita menos esclarecida, onde irmãos olvidaram que a cordialidade, a afabilidade e a doçura são ingredientes necessários e indispensáveis na elaboração do “bolo” do relacionamento humano. E por aí vão “torcendo” as máximas de Jesus e “amassando-se” reciprocamente, alguns mesmo chegando a dizer que faz-se urgente uma “reformulação” na Codificação Espírita, porque, segundo eles, Kardec já está ultrapassado. Claro que está!!! Kardec está ultrapassado pela empáfia desses pseudossábios, “estudiosos de menos e pretensiosos demais”, conforme nos vem lembrar o nobre Herculano Pires.

É chegado o momento de sairmos da infância espiritual, do excesso de personalismo e adentrarmos nos arraiais da vera fraternidade, proclamando através de atos e ações ponderados nossa maturidade espiritual.

Paulo afirmou, categoricamente [4]: “(…) porque qualquer que alimentar-se de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino”. Ora, o Espiritismo é alimento sólido e substancioso, próprio para quem já tem organismo maduro, adequado a metabolizá-lo com real proveito.

Torna-se necessário revigorar a mensagem do Espírito de Verdade [5]: “espíritas amai-vos; espíritas instruí-vos”, pois pelo amor, conseguiremos trabalhar na Seara do Mestre sem invadir o espaço de outros trabalhadores, e assim, todos podemos trabalhar, unindo esforços e plenamente conscientes do peso, medida e alcance de nosso esforço, e pela instrução galgaremos os cimos do conhecimento que, aliado ao amor, constituir-se-ão nas duas alavancas poderosas que nos ajudarão a remover o azinhavre milenar de nossas imperfeições e tudo que nos mantém no marnel das ilusões rasteiras.

Segundo Lázaro [6] “(…) o amor substitui a personalidade pela fusão dos seres e extingue a miséria social”. Desse modo, a guisa de defender nossos pontos de vista não nos é lícito o procedimento arbitrário de atropelar quem não se nos associa.

Nesse passo, lembremo-nos das palavras de Gamaliel [7]: “(…) se a obra é de homens, se desfará, mas se é de Deus, não poderás desfazê-la”. Evidentemente, sendo insofismável, a verdade cedo ou tarde triunfará, sem que para isso tenhamos que nos desgastar, e agastar nosso semelhante para que ela surja extemporaneamente. Tenhamos em conta que “primeiro deve vir a flor e só depois o fruto…” [8] Saibamos, portanto, aproveitar as oportunidades e sejam as nossas atitudes sempre o corolário das somas e multiplicações de esforços e jamais da subtração e divisão, vez que “a casa dividida cai”. Subtrair sim, somente as nossas imperfeições!

Saibamos caminhar e caminhemos “enquanto temos luz, para que as trevas não nos apanhem, pois quem anda nas trevas não sabe para onde vai”.

REFERÊNCIAS

[1] Tiago, 1:19.

[2] I Cor., 6:12.

[3] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 129.º Ed. FEB, 2009, cap. XVII, item 4, § 5º.

[4] Hebreus, 5:13.

[5] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 129.º Ed. FEB, 2009, cap. VI, item 5, § 5º.