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Em Busca da Iluminação

Uma reflexão sobre fé, testemunho, sofrimento e confiança em Deus no caminho de iluminação interior.

Publicado no Jornal Espírita n.º 476 — Fevereiro de 2026, página 3.

No Cristianismo primitivo a fé representava o elo de perfeita identificação da criatura renovada com Jesus.

A fim de confirmá-lo, ninguém se escusava ao martírio, sendo que, em algumas circunstâncias, buscavam-no jubilosamente.

A coroa do holocausto constituía honra não merecida, graças, à qual não havia recusa à fidelidade nem recuo na direção da apostasia.

Os casos que ocorriam, muito raros, aliás, representavam a variedade dos caracteres que distinguem as criaturas humanas, e aos crentes ainda não convencidos da alta magnitude da conversão, o direito de preservar o corpo, fugindo ao testemunho então erigido…

O que impressiona, ao recordar-se daqueles mártires, é a coragem defluente da aceitação do Mestre, muitas vezes, aos primeiros contatos com a fé libertadora, e sem muito tempo que houvesse sido dedicado à reflexão. É como se aguardassem a Sua mensagem que, ao ser percebida, diluía toda a sombra da ignorância, facultando o entendimento real do significado da existência terrestre.

Ouvindo a palavra de consolo e as expectativas a respeito do reino de Deus, os corações renovavam-se e a vida, antes destituída de valor, adquiria um sentido surpreendente, arrebatando o Espírito e renovando-o.

À semelhança de prisioneiros no corpo físico, ao tomarem conhecimento do Evangelho, rompiam-se-lhe os ergástulos vigorosos ante as poderosas lições do pensamento de Jesus.

O martírio era recebido com hinos de louvor e júbilos, mesmo que a debilidade emocional, às vezes, gerasse pavor e lágrimas, no abismo a que eram atiradas as vítimas da crueldade. O momento do sacrifício era encarado como o instante em que se aureolavam de tudo quanto os sentimentos nobres aguardavam, felicitando-os.

Ante essa desconhecida energia que vitalizava os mártires, os seus algozes mais se enfureciam, aplicando mais terríveis azorragues e punições que, de forma alguma, aquebrantava-lhes o ânimo. Pelo contrário, quanto, mais açoites e ondas de ódio, mais resignação e misericórdia mantinham em relação aos sicários implacáveis. Essa reação de amor os desequilibrava, porque eles aguardavam a presença do odio a que estavam acostumados nas refregas da inferioridade moral a que se entregavam.

Jesus, desde quando passava a ser conhecido, mudava-lhes completamente os conceitos existenciais e o sentido psicológico em torno da vida.

A aspiração pela independência do corpo. a fim de ser fruída a liberdade total, fascinava-os e os conduzia aos piores tipos de execução com o rosto iluminado pela esperança de plenitude.

Deixavam-se entranhar pelas sublimes lições de amor ensinadas pelo Amigo Sublime, e experimentavam o suave-doce encantamento da paz que passavam a sentir, adornando-se da alegria imortalista.

Jesus conquistava-os plenamente, e eles deixavam-se conduzir em totalidade pelo enlevo e encantamento da Sua mensagem.

Quanto mais severas as punições injustas, mais deslumbramento e mais dedicação daqueles que se Lhe afeiçoavam.

Foi esse estoicismo invulgar, dantes e depois jamais igualado, que inscreveu nas paginas da História a presença insofismável e inapagável de Jesus.


Com a adesão da fé cristã à política infeliz do Império romano e com a formulação engessadora nos dogmas, deixou de arder nos corações e de iluminar as mentes, para transformar-se a crença em entidade terrena poderosa, na qual o poder tornava-se essencial em detrimento do amor sublime que a caracterizava.

Mediante a alteração dos objetivos, a troca do reino dos Céus pelas ilusões e glórias mentirosas de César no mundo, o combustível poderoso da fé escasseou e a convicção cedeu lugar às conveniências humanas.

Salvadas algumas exceções, que foram os mártires de todos os tempos, os discípulos de Jesus, na atualidade, pouco diferem daqueles que O não aceitam.

As perseguições, antes sofridas, passaram a ser infligidas por eles próprios aos outros, que se lhes opunham, ante a fascinação das conquistas e louvaminhas humanas. A vida espiritual cedeu lugar ao luxo e à prepotência, à dominação e à arbitrariedade.

Quando esmaeceu quase totalmente ante os camartelos da Ciência que a tem desprezado, face ao comportamento dos que se diziam discípulos de Jesus, então escassos de servidores fiéis e abnegados, o vazio existencial tomou conta da sociedade, gerando desequilíbrios e alucinações.

Nesse comemos de dor e de amargura, o Consolador chegou à Terra e reacendeu a chama da verdade, arrancando-a dos dogmas ultramontanos e reativando a pulcritude dos ensinamentos incomparáveis do Mártir do Gólgota…

Novos cometimentos de amor passaram a surgir nos grupos sociais convidados à reflexão pelos Espíritos abnegados que voltaram ao mundo como estrelas apontando rumos e convidando à caridade consoladora, que agora passa a despertar o interesse dos novos discípulos do Evangelho.

Nada obstante, ante a implacável força do materialismo e do utilitarismo, a debandada de inúmeros servidores da Terceira Revelação, atirando-se às multidões do prazer e do gozar, é lamentável e devastadora ocorrência não esperada.

Por mais sejam demonstradas as faces nobres da imortalidade do Espírito, as conveniências sociais e as vaidades humanas dominam aqueles que se deveriam dedicar à renovação e ao trabalho de construção do mundo feliz.

Ninguém deseja qualquer testemunho, nos dias atuais, e ante a dor natural, o sofrimento de qualquer natureza, de imediato deseja-se solução mágica, a golpe de interferência do sobrenatural, gerando uma comunidade que seria privilegiada e diferente.

Qualquer afeição ao sacrifício e à renúncia dos bens terrenos em favor da autoiluminação indispensável à harmonia é rotulada de masoquismo ou de fuga psicológica da realidade.

Escasseiam os esforços em lavor da libertação dos vícios e das paixões soezes que vêm perturbando o processo de elevação, desde, há muito, facultando condutas totalmente opostas aos objetivos da reencarnação.

Não se deseja nenhuma dor, no entanto, devedora como é a criatura humana, prefere transferi-la para além-da-morte ou para futuros renascimentos, como se fora possível evitar-se o processo de evolução por comodidade.

A Doutrina Espírita, entretanto, ensina que os lances de provas e angústia fazem parte do mecanismo de reabilitação e de desenvolvimento intelecto-moral na busca da libertação total.

A dor é, ainda, o abençoado recurso de despertamento do ser humano que, meditando, encontra os melhores métodos para a vitória sobre as paixões do ego.


Não te permitas confundir, quando convidado ao testemunho, ou lamentar a existência diante dos sofrimentos inevitáveis.

Indispensável a luta interior pela tua transformação moral para melhor.

Resgatando hoje, o amanhã surgirá pleno de bênçãos, e, desde agora, experimentarás especial energia de paz, encorajando-te ao prosseguimento.

Robustece-te na fé ante a dor com a irrestrita confiança em Deus, tomando Jesus como o teu caminho para Ele, e não temas nunca!

Quando suceder a chegada do teu momento de sofrer, alegra-te e avança em paz.

Assim agindo, já estás com a alma iluminada pela sublime claridade do amor de Jesus.

[1] FRANCO, Divaldo. Ilumina-Te. pelo Espírito Joanna de Ângelis, 1.ª Edição, InterVidas, 2013, Cap. 3, pp. 27-31.